aventuras em 4x4

quinta-feira, janeiro 12, 2006

9º Dia
Atar – algures perto de Bou Naga, a caminho de Nouakchott
06h00-18h30
150 km
Fantástico!

O dia foi bastante duro, começando com o despertar às 05h30; às 06h00, rolávamos já em direcção a Akjout para vermos o início da 7ª etapa do Dakar.
Seguimos cerca de 30 km por asfalto e, no cruzamento certo, tomámos a pista da prova seguindo durante cerca de 20 km pelo percurso que todos os concorrentes teriam de enfrentar. O primeiro lugar onde parámos estava ocupado por um grupo de fotógrafos profissionais que faziam a cobertura da prova. Neste local, observámos a passagem das motas e a sensação de ver aquelas máquinas a serpentear as dunas e saltar os vários degraus formados pelos diversos extractos de areia foi fantástica. Para ver a passagem dos carros e camiões decidimos escolher outro local e continuámos pista fora até descobrir um sítio fabuloso. Para melhor ilustrar o tipo de cenário, basta referir que lá estava estacionado o helicóptero que faz a recolha de imagens e uma série de repórteres fotográficos e cameramen.
A passagem dos 2 Mitsubishi foi muito boa, destacando-se a condução do Peterhansel, mas o verdadeiro espectáculo começou quando os VW traçaram uma trilha que os levava ao topo de um conjunto de dunas de grande inclinação mesmo à nossa frente. Se isto já estava a superar todas as nossas maiores expectativas, a cereja em cima do bolo foi a sucessão de atascanços nesta passagem, incluindo alguns voos pelas dunas abaixo e respectivas mazelas nos carros, tudo isto misturado com a passagem dos enormes camiões que muitas vezes ultrapassavam os vários carros plantados no areal.
Esta azáfama ocupou-nos até às 14h00, tendo nós tido ainda tempo de ajudar todos os pilotos portugueses que se enterraram só para parara e cumprimentar-nos. De seguida, continuámos pela pista, que nos surpreendeu pela dureza e quantidade de pedra que caracterizava o percurso. Nas 3 horas que conduzimos até ao final do dia, fizemos 100 km, uma média de cerca de 30 km/h. A etapa de hoje, descrita pelo director de prova como rolante, tem 500 km e imagino que os concorrentes mais rápidos tenham alcançado médias superiores a 80 km/h!!! Continuando a manter este ritmo necessitaremos de aproximadamente 16 horas para cumprir todo o percurso de uma etapa do Dakar, mas para já é esse o nosso objectivo e esperamos alcançá-lo até ao final do dia de amanhã.

10º dia
Algures perto de Bou Naga, a caminho de Nouakchott – às portas de Nouakchott
08h40-01h30
430 km
Morrer na praia.



São neste momento 23h e estamos absolutamente imóveis a 500 metros do final de uma pista que nos trouxe do último sítio onde acampámos. O dia estava já a ser razoavelmente longo, graças aos quase 430 km que percorremos para chegar ao final de uma etapa do Dakar. A areia foi uma constante e o final do dia reservou-nos ainda uma extensa nuvem de pó, que andava já a ameaçar ao longo de todo o dia, que pura e simplesmente não se dissipava, o que nos complicou a vida de sobremaneira, pois atrasou-nos um pouco o ritmo que necessitávamos de ter para cumprirmos a etapa mais comprida de deserto que queríamos fazer (para podermos ver mais uma vez, provavelmente a última, os heróis do Dakar).
Quando estávamos mesmo quase a cheirar o asfalto, o Nissan Patrol, já completamente “no casco”, graças à condução aparentemente não tão económica de VMP, morreu por completo, pensando nós tratar-se tão só de uma falta de gasóleo trivial. Pois bem, isto sucedeu há duas horas… Entretanto, os mecânicos de serviço, PC e PMP, trataram de pôr mãos à obra, tentando analisar todos os ângulos da questão e resolvê-la, mas não conseguiram. Dirigiram-se algum tempo depois à bomba de gasolina da cidade, em cujo percurso demoraram cerca de uma hora, e não sei ainda que novidades trazem.
Entretanto, como bons portugueses que somos, assentámos arraiais e temos já o Camping Gaz a carburar para comermos o nosso esparguete e frango com bacon. Uma delícia!

Por último, gostaria apenas de deixar-vos com uma pequena história que ilustra bem a definição de que não existe deserto. Ontem à noite, achámos por bem acampar num determinado local, não interessa qual para o caso em questão. Depois do nosso repasto, fomos deitar-nos e, pois bem, acreditem quando vos digo que o sítio que escolhêramos, relativamente recolhido e abrigado, pensávamos nós, foi precisamente o local que uma equipa do Dakar e um conjunto de Mauritanos seleccionaram, à uma da manhã!, para acertar contas relativamente a uma ajuda que estes terão dado àquela. Imaginem a sensação…

Por hoje, é tudo, pois a noite antevê-se longa. No meio do infortúnio, há sempre espaço para vos dizer que o luar aqui é do mais belo que existe. Não temos as lanternas ligadas e conseguimos ver-nos uns aos outros perfeitamente. A paisagem é tão bela de noite como iluminada pela luz solar. Até amanhã.

PS – Que tal o nosso FC Porto?

Parte II

A noite acabou por volta da 1h30 da manhã, com o despertar marcado para as 05h30. Depois de terem chegado, PC e PMP deitaram mãos à obra para tentar pôr o “Titanic do deserto” a funcionar, o que não estava a ser nada fácil. Depois de um telefonema para o Sr. Fernando, não muito esclarecedor mas um pouco mais reconfortante (pois parecia confirmar-se o cenário de ausência de avarias mecânicas importantes), e de mais alguns largos minutos de tentativas, um dos senhores nipónicos das areias resolveu dar de si e mostrar-nos o seu imponente trabalhar. Acabámos por acampar mesmo ao lado da pista, para dormir as tais quatro horitas, com alguns de nós a comer um último reforço antes de ir dormir, pois não tinha havido tempo (nem disposição) para o habitual jantar. Houve inclusive membros da nossa expedição que nem paciência ou forças tiveram para montar a tenda, acabando por dormir no próprio jeep, hoje mais do que nunca coberto e revestido a pó.


11º dia
Às portas de Nouakchott – Nouakchott
05h30-15h30
150 km


O dia começou extremamente cedo, tal como previsto, para podermos deitar mais uma olhada aos artistas das areias, particularmente aos Portugueses. São neste momento 09h20 e já todos tomámos o segundo reforço de pequeno-almoço para podermos prosseguir a nossa aventura. Vimos já a partida das motos, incluindo os nossos bem portugueses Paulo Gonçalves e Hélder Rodrigues, que fez um óptimo resultado na etapa de ontem, por sinal, que pareceram satisfeitos de ver seis lunáticos de bandeira nacional em riste a tantos quilómetros de casa e depois de tanto cansaço acumulado. Estamos agora mesmo à espera da passagem dos carros, a ver que tal se portaram os participantes das quatro rodas. Quem sabe o que o dia nos reserva a seguir…

Segunda parte do dia e do relato: não consigo deixar de começar esta espécie de crónica sem referir o meu sincero lamento pela morte de um motard no Dakar. A nível pessoal, não posso deixar de sentir que a nossa viagem foi de alguma forma ensombrada pelo desaparecimento de alguém que quis apenas perseguir o seu sonho (por mais que eu tenha consciência dos riscos envolvidos). Essa foi sem dúvida a parte mais sombria de um dia que teve de tudo um pouco, e muito de coisas boas.
Na verdade, depois das motos, escolhemos mais uma vez um local perfeito para poder assistir a um verdadeiro acampamento de carros atascados, onde pudemos assistir à sagacidade de alguns... e à incompetência de outros. Com efeito, se por um lado houve equipas que demonstraram o quão bem estavam adaptadas ao ambiente muito particular do Dakar, outras houve por outro lado que provaram claramente não estarem talhadas para este tipo de provas. Em dois dias de prova, pudemos assistir em primeira mão a inépcia de determinados candidatos a terminar o Dakar. Mas nada nos marcou tanto como a falta de atitude de gente que parece pensar que o Dakar é uma prova de meninos e não de homens (e mulheres, por certo, como tão bem tem demonstrado Jutta Kleinschmidt) de barba rija. Com efeito, pudemos presenciar, mesmo à nossa frente, um atascanço (nada de particularmente anormal até aqui) de uma equipa de franceses que, após o atascanço, se limitaram a tirar a corda do guicho à espera que alguém passasse e tivesse o trabalho que não queriam ter. Não tentaram cavar, não fizeram qualquer esforço em termos de manobras e tentativas de desatascar o carro, nadam absolutamente nada. Quando constataram que ninguém ia parar para os assistir (afinal de contas, o Dakar é uma prova e eles não corriam qualquer risco de saúde), iniciaram de forma bem vagarosa e pausada alguns trabalhos básicos de tentativa de retirar o veículo daquela posição incómoda. E isto ao fim de 20 minutos sem nada fazer...!!
Não satisfeitos com o seu trabalho, tiveram a distinta lata de nos pedir a nós, assistência, ajuda quando haviam demonstrado durante largos minutos não terem predisposição ou paciência para fazer um esforço mínimo para se libertarem de uma situação que não é propriamente caso virgem no Dakar. Se eles não estavam interessados em resolver o seu próprio predicado, deveríamos nós ser bons samaritanos? Sem discutir o assunto entre nós, todos tivemos a mesma sensação: não!
Depois de vermos todos os concorrentes (e quero mesmo dizer todos), recolhemos às nossas viaturas e decidimos provar mais uma vez as delícias das pistas do Dakar e tentar verificar até que ponto se justificavam todos aqueles problemas em que os concorrentes se foram envolvendo. Sem querer de forma alguma fugir à modéstia, posso dizer-vos que os membros da nossa expedição não se safaram nada, mesmo nada mal. E, sempre que foi preciso desatascar um veículo (e não foram assim tantas as vezes, graças aos dotes de pilotagem dos condutores), toda a gente meteu mãos à obra, sem qualquer receio. Imaginem se tivéssemos carros preparados, é o que passa pela cabeça de todos…
Como fait-divers para melhor compreensão do que é a extensão de uma etapa do Dakar, fica aqui um exemplo: Carlos Sainz, famoso ex-piloto de rally, saiu para a etapa de Sábado às 11h00, tendo passado por nós pouco tempo depois. No entanto, uma avaria fê-lo perder cerca de sete horas em reparações, o que significou que demorou aproximadamente 18 horas (!!) para cumprir a etapa. Até aqui, nada de estranho. A parte mais inacreditável é aquela que refere que não esteve sequer perto de ser o último (81º em 114 concorrentes)…!

No fim da transposição da duna aparentemente mais elevada da região, parámos os carros e fizemos aquilo que julgo que todos queríamos fazer desde que chegámos: rebolar e saltar pelas dunas e cobrir-nos de areia. As fotografias falam muito melhor do que qualquer texto que possamos escrever, garanto-vos. Durante estes relativamente breves momentos, pudemos “enjoyar”, nas palavras de MMP, o deserto, o descanso, o dolce far niente. E foi aí que tivemos também a plena sensação de que as férias estavam no seu ponto de viragem. De súbito, o ritmo alterou-se e toda a atitude de calcorrear quilómetros para irmos em direcção a algo pareceu ser substituída por uma vontade de férias no sentido mais relaxado do termo.
Para terminar o dia em beleza, optámos por ir para o parque de campismo de Nouakchott, o qual se encontrava paredes-meias com a praia. Ou seja, por volta das quatro horas da tarde, demo-nos a nós mesmos o direito de simplesmente fazer nada. Enfiámo-nos nos nossos calções de banho e ala para a praia, em que todos tinham os olhos postos desde que chegáramos. Demos o nosso primeiro mergulho do ano em águas surpreendentemente frias de acordo com as nossas expectativas. Depois disso, tomámos o nosso primeiro banho de água quente (um pequeno fio, mas que pouco interessava no dia de ontem) em dias e todos quiseram envergar o seu melhor traje para um pequeno luxo: jantar fora! O restaurante ofereceu boa comida, em toda a sinceridade, mas podemos dizer-vos que demorámos cerca de três (!!) horas desde que entrámos até sairmos. Todos nós fechámos as pálpebras, durante momentos mais ou menos longos, enquanto esperávamos a chegada dos alimentos e fomos trocando histórias e piadas nem sempre brilhantes, diga-se, mas quase sempre engraçadas. O dia valeu definitivamente por tudo isto e por coisas mais que implicaria uma escrita ainda mais extensa e enfadonha. Além disso, se o fizéssemos, não teríamos nada para vos contar aquando da nossa chegada, não é verdade? Por hoje, é tudo. Amanhã é terça-feira, e as férias encaminham-se rapidamente, com grande pena nossa, para o fim. Até amanhã.


12º dia
Nouakchott – 200 km de Nouadhibou
11h00-19h00
280 km
Pequenos luxos



As nossas férias estão de facto a aburguesar-se. Já não chegava o jantar em restaurante, o banho de água quente, a praia a 15 metros dos nossos aposentos, como ainda nos demos ao luxo de acordar sem horas previamente marcada e tomar o pequeno-almoço no restaurante/refeitório em obras mas já terminado, por certo, virados para o mar. Tivemos o azar de querer trocar dinheiro em dia feriado, o que nos remeteu para os negociantes de rua, que parecem mel, nas sábias palavras de PMP, quando se apercebem que há estrangeiros querendo trocar euros. Mas são estes os pequenos encantos e diferenças dos países a que nos propusemos vir, e disso já sabíamos de antemão.

A segunda parte do dia desenrolou-se na sua quase totalidade numa pista à beira-mar. Seguimos a sugestão de uns amigos de PG e fizemos uma boa parte da nossa viagem vendo a maré a encher e desfrutando a paisagem. No entanto, a parte mais animada do dia estava ainda por vir. MMP, com certeza ainda mais espicaçado do que o costume pelo Dakar, sugeriu uma prova de orientação a cerca de 50 km do nosso destino de hoje: o parque de campismo. A prova de MMP e PC correu dentro do normal, pois ambos optaram por seguir o caminho mais rápido: o estradão que ligava os dois pontos. MMP, como sempre, optou pelo caminho não mais rápido mas mais directo, não obstante dunas, tufos e afins. Como é óbvio, não foi o primeiro a chegar mas isso não era para si o mais importante, disse-nos depois.
A parte mais curiosa foi termos chegado ao waypoint do GPS indicado como o parque de campismo e termos confirmado que não havia nada em volta, muito menos no dito ponto. Encontrámos sem grandes dificuldades o parque de campismo e ficámos por cá, numa tenda T0, com 30 e poucos metros quadrados, em regime de camarata. O sono começou a apoderar-se de nós por volta da hora de jantar e um dos nossos membros chegou mesmo a manifestar alguns sintomas de quem estava prestes a ficar doente, mas acabou por, como sói dizer-se, “não se dar à doença”. Por hoje, é tudo, até amanhã.


13º dia
200 km de Nouadhibou – Boujdour
10h30-23h00
775 km

Chuva! O dia começou com chuva, para algum espanto nosso, embora não total, pois o dia de ontem já tinha acenado essa possibilidade e até trazido algumas gotas durante a hora de jantar. Está a chover de forma razoável, o que veio dificultar em larga medida os nossos planos de conhecer uma parte do Parque de Arguin de barco. Como tal, alterámos a nossa agenda para cumprir quilómetros até ao outro lado da fronteira entre Marrocos e a Mauritânia. A ver como o dia corre. Quem sabe se com mais uma prova de orientação...

O resto do dia trouxe um pouco mais do mesmo: quilómetros. Agora que as aventuras e desventuras da Mauritânia chegaram a um fim, penso que todos temos neste momento apenas um fim em vista: a chegada ao Porto. Marrocos parece subitamente demasiado europeizado, quando comparado com a atitude e cenário mauritanos.
Com este objectivo em mente, propusemo-nos fazer o máximo de quilómetros possível. A viagem correu muito bem, com um ritmo razoavelmente elevado, e há a destacar particularmente a facilidade com que nos fomos desembaraçando dos sucessivos controlos fronteiriços, para nossa geral surpresa. Já o relógio apontava para um pouco depois das nove da noite quando se chegou à decisão, ainda que não consensual, diga-se, de tentar prolongar o “esticanço” até Laayoune. A nossa opção foi claramente obstada pela chuva que pouco depois começou a fazer-se sentir, dificultando em boa medida a continuação da nossa viagem. Como tal, resolvemos pernoitar na cidade “descoberta” por Bartolomeu Dias, o Bojador, ou, na versão original, Boujdour. Não há muito a dizer da cidade em si, excepto ressalvar a possibilidade de um banhinho de água quente e uma noite mais bem dormida. Amanhã, recomeçará a nossa jornada em direcção ao Porto. Logo mais veremos até onde nos leva desta vez. Até amanhã.


14º dia
Boujdour – Agadir
10h00-19h30
810 km

Após um pequeno-almoço retemperador, lá nos fizemos ao caminho para devorar mais um pouco de asfalto. As paisagens e os cenários vão-se sucedendo pausada mas constantemente e o tempo que teima em passar mais vagarosamente é auxiliado por um cd ou uma boa conversa, ou até pela escrita desta humilde espécie de pasquim. As memórias são já mais do que muitas e já não é tarde para começar a relembrá-las da forma mais vívida possível.

sexta-feira, janeiro 06, 2006





3º dia: Laayoune - 60 km depois de Nouadhibou
A areia brindou-nos com a sua chegada.

Despertar às 06h00, para um início atempado do novo ano que entrou à meia-noite de hoje, um pouco por todo o mundo, mas consideravelmente mais tarde para nós, conforme ontem descrito. Na verdade, acabámos por brindar e comer uma fatia do sempre fantástico pão-de-ló da Padaria Sto. António bastante depois da meia-noite, depois de concluídas as operações necessárias, a todos os níveis, para a prossecução da nossa expedição. A nossa despedida da agitada cidade de Laayoune foi abreviada de forma abrupta pela comunicação a um grupo de seis pessoas ensonadas que só haveria pão para o pequeno-almoço largos minutos depois da nossa hora prevista de saída. Depois disso, não nos restou outra hipótese que não assumir mais um pequeno-almoço rolante para podermos obter a maior probabilidade possível de chegarmos (e transpormos) a fronteira entre Marrocos e a Mauritânia. Graças ao nosso despertar madrugador e à boa estrada com que nos deparámos, pudemos chegar com duas horas de antecedência ao nosso objectivo.
Confesso que fiquei assoberbado - é esta a palavra certa - com a forma como tudo se processou entre fronteiras. As condições em que os guardas fronteiriços desempenhavam a sua função, o oportunismo dos mais diversos párias, tudo isso me deixou algo desiludido, por mais que não surpreendido. Por outro lado, pudemos presenciar um momento de rara beleza, em que todas as pessoas da fronteira sem excepção, párias incluídos, se reuniram para rezar em conjunto.
Passada a fronteira, os três condutores, proprietários e principais ansiosos pela chegada às areias e dunas da Mauritânia - Miguel (MMP), Paulo (PC) e Manel (MMP) - viram-se rapidamente rodeados por areia. Acabámos por acampar no sopé de uma duna, onde pudemos deliciar-nos com um fantástico repasto constituído por Sopa Juliana, massa cozida e uma mistura de sobras de carne com bacon e ervilhas. Quem negará que tantas outras refeições supostamente melhores nos souberam tão pior do que esta…
Recolhemos hoje pouco depois das 22h00, com uma previsão de ausência de hora de despertar para compensar todo este esforço nos últimos tempos. Amanhã, contamos chegar a Atar, com muitas pistas de areia e atascanços pelo meio. Até amanhã.

Por Vasco


4º dia: 60 km depois de Nouadhibou - 170 km antes de Atar
10h40-18h00
300 km
Momentos verdadeiramente especiais.

O dia começou como tinha acabado: cheio de areia! Com efeito, acordámos todos embrenhados em areia, areia essa que se imiscuíra nas nossas tendas de forma sorrateira durante a noite. Na verdade, tudo em que tocávamos estava coberto de areia. Infelizmente, chegámos também à conclusão que o frio estava mais presente do que prevíramos inicialmente, mas nada de verdadeiramente surpreendente.
Depois de um levantar relativamente tardio, fizemo-nos às pistas que nos esperavam há já alguns dias. Os condutores n.º 1 foram naturalmente os primeiros a provar as areias do verdadeiro deserto (excepto para o nosso querido PMP, sempre insatisfeito com a existência de pessoas no nosso caminho). A manhã acabou já passava das duas da tarde, quando parámos para almoçar sob o abrigo amistoso de algumas rochas basálticas (afirmação não completamente corroborada pelo nosso especialista de serviço, PG), altura em que o primeiro rookie, VMP, passou para o volante da viatura habitualmente do meio, dada a maior inexperiência relativa dos seus condutores.
Passámos por algumas localidades, quase todas em ruínas ou perto disso, mas nas quais fomos sempre acolhidos com um sorriso, sorriso esse que encheu os nossos corações quando parámos para PG oferecer a alguns residentes de uma dessas localidades alguma roupa, para que pudessem sentir-se um pouco mais aconchegados e para que pudessem pensar que a nossa quadra natalícia é de facto para todos. Esse foi sem dúvida alguma o momento do dia, juntamente com a cara de alegria de dois meninos a quem foram dados alguns brinquedos.
Metemo-nos ao caminho em seguida, tendo como objectivo a chegada a Atar, que não chegou a acontecer. Nasceram mais duas estrelas do mundo do todo-o-terreno, PG e MN, que demonstraram ser capazes de não desiludir os sempi-habilidosos PC, PMP e MMP.
Parámos para acampar e jantar por volta das 18h30, visto ser essa a hora a que o sol se põe por estas bandas, e procedemos à habitual montagem de tendas e respectiva copa. Pouco tempo depois, fomos abordados por algumas pessoas que pretendiam oferecer-nos estadia nas suas propriedades, vindos não se sabe bem de onde, dado que julgávamos estar em local relativamente isolado.
Amanhã, chegaremos a Atar, se tudo correr conforme o esperado, e seguiremos viagem para o destino seguinte na nossa tabela. Os quilómetros parecem não arrefecer a vontade de calcorrear mais uns quantos e deslumbrarmo-nos com as paisagens, as pessoas e os caminhos para chegar até lá.
Até amanhã.

Por Vasco

5º dia: 170 km antes de Atar - Chinguetti
08h45-16h30
290 km
Em África, definitivamente.

O dia de hoje, prestes a terminar, não se conta com pistas, relatos de atascanços nem nada semelhante. Depois de termos chegado a Chinguetti, de termos visto uma das inúmeras bibliotecas com alguns dos seus manuscritos e artefactos, optámos por ficar nesta localidade, que tanto nos surpreendeu pela positiva. Em vez das habituais tendas, achámos por bem encontrar refúgio e descanso num simpático e típico "auberge", onde decidimos também jantar. Depois de um retemperador banho (de água fria, é certo, mas que ninguém desdenhou), que nos retirou toda a poeira acumulada dos últimos dias de deserto, dirigimo-nos ao apelativo local do nosso repasto, sob uma tenda com três mesas simetricamente distribuídas. Não só a comida estava particularmente boa, como subitamente nos vimos rodeados de gente ansiosa pelo espectáculo que iria ter lugar em seguida, sobre o qual pouco sabíamos.
Num repente, de forma imprevisivelmente surpreendente, gerou-se um espectáculo inacreditável de cor, som, dança e partilha. Durante alguns minutos, não pareceu haver diferenças de cor, continente, língua, hábitos, música. Todos fazíamos parte daquele colorido, de toda aquela alegria, daquela experiência de vida. Fomos absolutamente absorvidos pela magnificência do que nos era comunicado através de músicas, danças. Um dos membros do nosso grupo foi inclusivamente convidado a dançar, tamanha a sensação mútua de confiança, de permuta. Estávamos no epicentro de largas dezenas de pessoas que tinham vindo ao nosso encontro, sem nenhum de nós saber, para algo que, com certeza, nos vai ficar gravado na memória durante largos tempos. Absolutamente indescritível, por mais que tentemos...
Por mais que queiramos, não conseguimos deixar de relatar todas as peripécias que nos vão acontecendo ao longo do dia. Durante o dia de hoje, vimos planícies transformarem-se em subidas, dunas tornarem-se barro, areia amarela em solo vermelho. Rodámos em pistas muito rápidas e em escaladas tortuosas e sinuosas. Foi sem dúvida um dia de extremos, concluído da melhor forma, sem dúvida alguma. As experiências e os dias sucedem-se e todos parecem ainda mais entusiasmados do que estavam nas antevésperas. Por agora, um pouco de descanso. Dormem todos excepto um, e todos querem estar tão bem preparados quanto possível para absorver tudo o que de imenso esta viagem tem ainda para nos oferecer. Até amanhã.

Por Vasco

6º dia
Chinguetti - Cratera de Guelb Er Richat
08h00-20h00
230 km
Um meteorito e a noite.

Dia que se esperava difícil ao termos escolhido o que pensávamos ser a pista mais lenta de Chinguetti para Ouadane, motivo pelo qual a alvorada foi bastante cedo: 07h00. Às 08h00, iniciámos a nossa jornada para a última cidade antes do deserto do Sahara. A pista, que esperávamos ser muito complicada, veio a revelar-se bastante rolante e os quilómetros foram-se passando a um ritmo assaz elevado, tendo nós alcançado Ouadane ainda antes do almoço. Antes da chegada ainda houve tempo para presenciarmos os primeiros voos da viagem dos quais daremos conta mais tarde.
Em Ouadane fomos surpreendidos pelo facto de a recuperação da cidade velha ter sido financiada por Portugal.
Neste local fomos envolvidos num dos habituais "esquemas", pois contratámos um guia local para uma visita e no final descobrimos que a entrada no sítio teria de ser paga a outro indivíduo; a cena assumiu contornos caricatos entre os dois locais e no final tudo acabou em bem graças a intervenção do Polícia que estava pela zona.
Após o almoço seguimos para a cratera de Guelb Er Richat, fenómeno morfológico que se atribui à queda de um cometa, criando uma deformação com cerca de 80 km de diâmetro, impressionante. No final do dia passámos numas pistas muitos rochosas e muito duras em que a velocidade média durante algumas horas rondou os 10 km/h.
O cair da noite apanhou-nos em plena pista tendo que fazer ainda uma parte do percurso já de noite. No final da noite, escolhemos um local para pernoitar que nos pareceu inóspito, mas que se veio a revelar uma certa surpresa. Sem o sabermos, acampámos quase na localização exacta de uma aldeia, tendo-nos visitado na manhã seguinte, como sempre acontece, uma digna representante dessa mesma aldeia com as mais recentes bugigangas e marroquinarias.

Por Vasco

7º dia
Cratera de Guelb Er Richat - Atar
230 km
10h00-18h00
A morder o pó do Dakar.

A manhã iniciou-se de forma calma, sem horário de partida rígido. O PG aproveitou o tempo livre para escalar a duna imediatamente à frente do nosso acampamento, a 45 minutos de distância.
Da deslocação prevista para hoje destacava-se a passagem do Passe de Amogjar, desfiladeiro extremamente escarpado e do qual tinha visto umas imagens ainda no Porto. Antes, passámos por um enorme lago seco, o que nos demorou cerca de 1 hora circulando sempre acima dos 80 km/h.
Após o almoço chegou a parte mais apetecida e com efeito as nossas expectativas não saíram defraudadas; que paisagem imponente e grandiosa... Todos ficaram arrebatados com o espectáculo proporcionado pelas ravinas, formações rochosas e pela estrada que teimava e serpenteava a encosta sempre subindo a montanha.
Para passar a noite escolhemos o parque de campismo de Atar, recomendado por anteriores viajantes e para já a opção parece bastante acertada: garantimos mais um duche de água fria e reservamos uma tenda só com tecto para dormirmos os 6 juntos.

Por Migas

De facto, as soluções que encontramos e que parecem fazer tanto sentido a 3500 km de distância… Ao fim de uma semana de deserto, os banhos de água fria já não causam grande mossa ou surpresa. Pelo contrário, surtem tanto ou mais efeito do que um "habitual" duche, acreditem. A própria música que trouxemos connosco parece nem sempre ser a envolvência mais adequada ao que nos rodeia. Na verdade, é impressionante ver tanta Terra, na acepção mais global do termo, vê-la até mais não. Hoje, pudemos ver formações rochosas de todos os tipos, pudemos compreender um pouco melhor, penso, as diferenças de terreno, de paisagem. De facto, o Passe de Amogiar superou todas as expectativas de todos nós. As dunas palideceram por certo na comparação com um cenário que parecia não ter fim, incluindo verdadeiras paredes, aos meus olhos de leigo, que os jeeps foram subindo com todo o desembaraço, como se houvessem nascido para nada mais do que aqueles momentos.
Confesso-me surpreendido com a dignidade e postura dos Mauritanos, tal como já tinha conversado com o MN anteriormente. Parecem ter outra atitude devida, outro orgulho, outro amor-próprio. Parecem menos ansiosos pelo convívio (e ofertas) dos estrangeiros e visitantes em geral. Parecem mais cientes de quem são, menos permeáveis ao que vem do exterior. As viagens valem pelas coisas mas também muito (talvez ainda mais) pelas pessoas que se conhecem pelo caminho. Um até amanhã, de Atar.

Por Vasco

8º dia
Atar - Atar
20 km
10h00-23h00

Hora de almoço. Um vento agreste, de direcção incerta, impede-nos de, como habitualmente, podermos saborear a nossa sobremesa, a escolher entre scones, marmelada e salame de chocolate: um gostinho das coisas boas de casa, para contrastar com os atuns, salsichas e almôndegas em lata que tão bem, contudo, nos têm sabido. No entanto, estamos neste momento a enfrentar este vento adverso por um motivo bem especial: ao fim de algum tempo de procura, durante a manhã, encontrámos o ponto de chegada dos tão aguardados bólides do celebérrimo, e por todos apreciado, em maior ou menor grau, Lisboa-Dakar. Posto isso, andámos alguns quilómetros na direcção contrária para podermos escolher um bom sítio para almoçar e para ver (acima de tudo, este era o factor importante) a passagem dos potentes e ágeis veículos das areias. Como tal, sobra-nos um pouquinho de tempo para poder antecipar um tudo nada a escrita do nosso boletim diário.

Por Vasco


O nosso primeiro encontro com o Dakar nao esteve a altura das expectativas do grupo, muito embora o nosso entusiasmo nos tenha feito aguentar na pista a ver passar os concorrentes ate as 20h00, no entanto o dia ficou salvo quando decidimos entrar pelo bivouac com toda a confianca, gracas as postura do Miguel, e de repente demos por nos a assistir ao briefing nocturno que nos anos anteriores habitualmente via na eurosport e alguns tiveram mesmo a oportunidade de entabular uma conversa com o nosso piloto Carlos Sousa sobre os acontecimentos do dia.
Por hoje o relato fica mais curto pois a alvorada preve-se muito cedo, as 06h00 ja temos que estar a rolar para apanhar o inicio da 7 etapa.

domingo, janeiro 01, 2006

Finalmente acabaram os preparativos e começou a viagem!

Após algumas semanas de preparação de todos os detalhes, como habitualmente mais intensos à medida que se aproximava a hora da partida, arrancámos para os primeiros quilómetros da nossa longa viagem.
Para melhor compreenderem o que foram os últimos dias, e até as últimas horas, basta referir que no dia da partida fechámos o negocio com um último patrocinador, tendo sido gasta a tarde de quinta-feira a produzir os autocolantes com a imagem da empresa.
No que respeita à preparação dos veículos, será suficiente dizer que as molas novas para o Patrol chegaram na quinta (dia da partida) às 11h00 e, não fora a colaboração do Hugo e do Sr. Fernando, que estiveram até às 19h00 a instalá-las, teria sido de todo impossível vir com o jeep na sua configuração final.
Claro que todos estes factos levaram a que, por um lado a saída do Porto, tivesse sido adiada mais de 2 horas e, por outro, que se viesse a constatar durante a viagem que os amortecedores traseiros do Patrol estavam montados ao contrário!

A viagem decorreu sem nada digno de verdadeiro registo, o que é sempre bom numa tirada como a que estamos a empreender, mas deixo-vos ainda assim alguns dados sobre o que foram os nossos dois últimos dias:

Quarta, 28 de Dezembro de 2005:
Repartir a bagagem e carregar os carros até às 02h00

Quinta, 29 de Dezembro de 2005
09h00 às 18h00 - Dia de trabalho normal
21h30: Arranque da viagem

Sexta, 30 de Dezembro de 2005
Chegada a Tarifa às 08h00 com cerca de 900 km já efectuados
Travessia do estreito de Gibraltar e passagem da fronteira Marroquina
12h30 – Tanger – problemas em simultâneo com os sistemas eléctricos do Toyota e LR.
20h00 – chegada a Safi com cerca de 1.600 km cumpridos em 22 horas consecutivas
23h00 – recolha geral para recuperar energia para as próximas tarefas, nomeadamente mudar a instalação dos amortecedores do Patrol e cumprir os 1.000 km que temos como objectivo para amanhã.

Por Migas




2º dia – Missão (parcialmente) cumprida

Dormida a nossa primeira noite em solo africano, em Safi, reposta parte do nosso descanso e recuperada uma boa porção das nossas energias graças a um típico restaurante marroquino – ementa local à base de pizzas e bifes, em quantidades dignas de meninos da 1ª classe –, acordámos às 06h30 para começarmos a nossa classificativa de ligação de quase 1000 kms. O pequeno almoço foi servido tarde, apesar das generosas doses, o que atrasou de sobremaneira a nossa partida – para perto das 08h15.

A primeira parte da manhã não foi propriamente fácil, com bastante trânsito entre as localidades e estradas montanhosas a complicar-nos a vida. Após uma paragem técnica, em que comprámos pão para o nosso almoço “rolante”, para que não perdêssemos mais tempo do que o estritamente necessário, fizemo-nos à segunda parte do dia, que durou até há relativamente pouco tempo atrás, até cerca das 20h30. Conseguimos, graças à nossa férrea vontade de chegar ao deserto o mais depressa possível, fazer os 1000 quilómetros (mais esperados do que verdadeiramente) previstos, encontrando-nos agora em Laayoune. O jantar demorou uma eternidade, o que complicou as nossas contas mais um pouco (pois amanhã teremos de fazer mais 1000 quilómetros, com a condicionante de termos de chegar à fronteira da Mauritânia às cinco da tarde) e os nossos festejos de Ano Novo, que se resumiram a um sentido abraço entre todos (o pão-de-ló e o Vinho do Porto ficarão para um momento mais oportuno), tendo todos os participantes com que se ocupar, particularmente o Miguel e o Paulo, ainda a braços com a mudança de amortecedores do Patrol. Como consequência, a nossa noite vai ter pouco de descanso, pois são agora 00h30, Morfeu não parece estar sequer próximo de chegar e o dia de amanhã começará tão ou mais cedo do que o dia de hoje.

A título pessoal, gostaria de acrescentar as fantásticas paisagens que pude presenciar hoje (sendo o novato da equipa, cabe-me a mim em quase exclusivo o maravilhamento com estas pequenas impressões), de uma imensa vastidão que me permitiu ter outra noção da relatividade de tudo um pouco. Está tudo a valer muito a pena, apesar das tortuosas horas de erguer. Não posso esperar pelo que há-de vir amanhã, dado que começará nesta próxima manhã aquilo que verdadeiramente nos trouxe até aqui: o deserto. Uma vez que esta deverá ser a última vez que escrevemos antes da viagem de regresso, um “até já” a todos os que quiseram vir espreitar o que andávamos a fazer.