aventuras em 4x4

sexta-feira, janeiro 06, 2006





3º dia: Laayoune - 60 km depois de Nouadhibou
A areia brindou-nos com a sua chegada.

Despertar às 06h00, para um início atempado do novo ano que entrou à meia-noite de hoje, um pouco por todo o mundo, mas consideravelmente mais tarde para nós, conforme ontem descrito. Na verdade, acabámos por brindar e comer uma fatia do sempre fantástico pão-de-ló da Padaria Sto. António bastante depois da meia-noite, depois de concluídas as operações necessárias, a todos os níveis, para a prossecução da nossa expedição. A nossa despedida da agitada cidade de Laayoune foi abreviada de forma abrupta pela comunicação a um grupo de seis pessoas ensonadas que só haveria pão para o pequeno-almoço largos minutos depois da nossa hora prevista de saída. Depois disso, não nos restou outra hipótese que não assumir mais um pequeno-almoço rolante para podermos obter a maior probabilidade possível de chegarmos (e transpormos) a fronteira entre Marrocos e a Mauritânia. Graças ao nosso despertar madrugador e à boa estrada com que nos deparámos, pudemos chegar com duas horas de antecedência ao nosso objectivo.
Confesso que fiquei assoberbado - é esta a palavra certa - com a forma como tudo se processou entre fronteiras. As condições em que os guardas fronteiriços desempenhavam a sua função, o oportunismo dos mais diversos párias, tudo isso me deixou algo desiludido, por mais que não surpreendido. Por outro lado, pudemos presenciar um momento de rara beleza, em que todas as pessoas da fronteira sem excepção, párias incluídos, se reuniram para rezar em conjunto.
Passada a fronteira, os três condutores, proprietários e principais ansiosos pela chegada às areias e dunas da Mauritânia - Miguel (MMP), Paulo (PC) e Manel (MMP) - viram-se rapidamente rodeados por areia. Acabámos por acampar no sopé de uma duna, onde pudemos deliciar-nos com um fantástico repasto constituído por Sopa Juliana, massa cozida e uma mistura de sobras de carne com bacon e ervilhas. Quem negará que tantas outras refeições supostamente melhores nos souberam tão pior do que esta…
Recolhemos hoje pouco depois das 22h00, com uma previsão de ausência de hora de despertar para compensar todo este esforço nos últimos tempos. Amanhã, contamos chegar a Atar, com muitas pistas de areia e atascanços pelo meio. Até amanhã.

Por Vasco


4º dia: 60 km depois de Nouadhibou - 170 km antes de Atar
10h40-18h00
300 km
Momentos verdadeiramente especiais.

O dia começou como tinha acabado: cheio de areia! Com efeito, acordámos todos embrenhados em areia, areia essa que se imiscuíra nas nossas tendas de forma sorrateira durante a noite. Na verdade, tudo em que tocávamos estava coberto de areia. Infelizmente, chegámos também à conclusão que o frio estava mais presente do que prevíramos inicialmente, mas nada de verdadeiramente surpreendente.
Depois de um levantar relativamente tardio, fizemo-nos às pistas que nos esperavam há já alguns dias. Os condutores n.º 1 foram naturalmente os primeiros a provar as areias do verdadeiro deserto (excepto para o nosso querido PMP, sempre insatisfeito com a existência de pessoas no nosso caminho). A manhã acabou já passava das duas da tarde, quando parámos para almoçar sob o abrigo amistoso de algumas rochas basálticas (afirmação não completamente corroborada pelo nosso especialista de serviço, PG), altura em que o primeiro rookie, VMP, passou para o volante da viatura habitualmente do meio, dada a maior inexperiência relativa dos seus condutores.
Passámos por algumas localidades, quase todas em ruínas ou perto disso, mas nas quais fomos sempre acolhidos com um sorriso, sorriso esse que encheu os nossos corações quando parámos para PG oferecer a alguns residentes de uma dessas localidades alguma roupa, para que pudessem sentir-se um pouco mais aconchegados e para que pudessem pensar que a nossa quadra natalícia é de facto para todos. Esse foi sem dúvida alguma o momento do dia, juntamente com a cara de alegria de dois meninos a quem foram dados alguns brinquedos.
Metemo-nos ao caminho em seguida, tendo como objectivo a chegada a Atar, que não chegou a acontecer. Nasceram mais duas estrelas do mundo do todo-o-terreno, PG e MN, que demonstraram ser capazes de não desiludir os sempi-habilidosos PC, PMP e MMP.
Parámos para acampar e jantar por volta das 18h30, visto ser essa a hora a que o sol se põe por estas bandas, e procedemos à habitual montagem de tendas e respectiva copa. Pouco tempo depois, fomos abordados por algumas pessoas que pretendiam oferecer-nos estadia nas suas propriedades, vindos não se sabe bem de onde, dado que julgávamos estar em local relativamente isolado.
Amanhã, chegaremos a Atar, se tudo correr conforme o esperado, e seguiremos viagem para o destino seguinte na nossa tabela. Os quilómetros parecem não arrefecer a vontade de calcorrear mais uns quantos e deslumbrarmo-nos com as paisagens, as pessoas e os caminhos para chegar até lá.
Até amanhã.

Por Vasco

5º dia: 170 km antes de Atar - Chinguetti
08h45-16h30
290 km
Em África, definitivamente.

O dia de hoje, prestes a terminar, não se conta com pistas, relatos de atascanços nem nada semelhante. Depois de termos chegado a Chinguetti, de termos visto uma das inúmeras bibliotecas com alguns dos seus manuscritos e artefactos, optámos por ficar nesta localidade, que tanto nos surpreendeu pela positiva. Em vez das habituais tendas, achámos por bem encontrar refúgio e descanso num simpático e típico "auberge", onde decidimos também jantar. Depois de um retemperador banho (de água fria, é certo, mas que ninguém desdenhou), que nos retirou toda a poeira acumulada dos últimos dias de deserto, dirigimo-nos ao apelativo local do nosso repasto, sob uma tenda com três mesas simetricamente distribuídas. Não só a comida estava particularmente boa, como subitamente nos vimos rodeados de gente ansiosa pelo espectáculo que iria ter lugar em seguida, sobre o qual pouco sabíamos.
Num repente, de forma imprevisivelmente surpreendente, gerou-se um espectáculo inacreditável de cor, som, dança e partilha. Durante alguns minutos, não pareceu haver diferenças de cor, continente, língua, hábitos, música. Todos fazíamos parte daquele colorido, de toda aquela alegria, daquela experiência de vida. Fomos absolutamente absorvidos pela magnificência do que nos era comunicado através de músicas, danças. Um dos membros do nosso grupo foi inclusivamente convidado a dançar, tamanha a sensação mútua de confiança, de permuta. Estávamos no epicentro de largas dezenas de pessoas que tinham vindo ao nosso encontro, sem nenhum de nós saber, para algo que, com certeza, nos vai ficar gravado na memória durante largos tempos. Absolutamente indescritível, por mais que tentemos...
Por mais que queiramos, não conseguimos deixar de relatar todas as peripécias que nos vão acontecendo ao longo do dia. Durante o dia de hoje, vimos planícies transformarem-se em subidas, dunas tornarem-se barro, areia amarela em solo vermelho. Rodámos em pistas muito rápidas e em escaladas tortuosas e sinuosas. Foi sem dúvida um dia de extremos, concluído da melhor forma, sem dúvida alguma. As experiências e os dias sucedem-se e todos parecem ainda mais entusiasmados do que estavam nas antevésperas. Por agora, um pouco de descanso. Dormem todos excepto um, e todos querem estar tão bem preparados quanto possível para absorver tudo o que de imenso esta viagem tem ainda para nos oferecer. Até amanhã.

Por Vasco

6º dia
Chinguetti - Cratera de Guelb Er Richat
08h00-20h00
230 km
Um meteorito e a noite.

Dia que se esperava difícil ao termos escolhido o que pensávamos ser a pista mais lenta de Chinguetti para Ouadane, motivo pelo qual a alvorada foi bastante cedo: 07h00. Às 08h00, iniciámos a nossa jornada para a última cidade antes do deserto do Sahara. A pista, que esperávamos ser muito complicada, veio a revelar-se bastante rolante e os quilómetros foram-se passando a um ritmo assaz elevado, tendo nós alcançado Ouadane ainda antes do almoço. Antes da chegada ainda houve tempo para presenciarmos os primeiros voos da viagem dos quais daremos conta mais tarde.
Em Ouadane fomos surpreendidos pelo facto de a recuperação da cidade velha ter sido financiada por Portugal.
Neste local fomos envolvidos num dos habituais "esquemas", pois contratámos um guia local para uma visita e no final descobrimos que a entrada no sítio teria de ser paga a outro indivíduo; a cena assumiu contornos caricatos entre os dois locais e no final tudo acabou em bem graças a intervenção do Polícia que estava pela zona.
Após o almoço seguimos para a cratera de Guelb Er Richat, fenómeno morfológico que se atribui à queda de um cometa, criando uma deformação com cerca de 80 km de diâmetro, impressionante. No final do dia passámos numas pistas muitos rochosas e muito duras em que a velocidade média durante algumas horas rondou os 10 km/h.
O cair da noite apanhou-nos em plena pista tendo que fazer ainda uma parte do percurso já de noite. No final da noite, escolhemos um local para pernoitar que nos pareceu inóspito, mas que se veio a revelar uma certa surpresa. Sem o sabermos, acampámos quase na localização exacta de uma aldeia, tendo-nos visitado na manhã seguinte, como sempre acontece, uma digna representante dessa mesma aldeia com as mais recentes bugigangas e marroquinarias.

Por Vasco

7º dia
Cratera de Guelb Er Richat - Atar
230 km
10h00-18h00
A morder o pó do Dakar.

A manhã iniciou-se de forma calma, sem horário de partida rígido. O PG aproveitou o tempo livre para escalar a duna imediatamente à frente do nosso acampamento, a 45 minutos de distância.
Da deslocação prevista para hoje destacava-se a passagem do Passe de Amogjar, desfiladeiro extremamente escarpado e do qual tinha visto umas imagens ainda no Porto. Antes, passámos por um enorme lago seco, o que nos demorou cerca de 1 hora circulando sempre acima dos 80 km/h.
Após o almoço chegou a parte mais apetecida e com efeito as nossas expectativas não saíram defraudadas; que paisagem imponente e grandiosa... Todos ficaram arrebatados com o espectáculo proporcionado pelas ravinas, formações rochosas e pela estrada que teimava e serpenteava a encosta sempre subindo a montanha.
Para passar a noite escolhemos o parque de campismo de Atar, recomendado por anteriores viajantes e para já a opção parece bastante acertada: garantimos mais um duche de água fria e reservamos uma tenda só com tecto para dormirmos os 6 juntos.

Por Migas

De facto, as soluções que encontramos e que parecem fazer tanto sentido a 3500 km de distância… Ao fim de uma semana de deserto, os banhos de água fria já não causam grande mossa ou surpresa. Pelo contrário, surtem tanto ou mais efeito do que um "habitual" duche, acreditem. A própria música que trouxemos connosco parece nem sempre ser a envolvência mais adequada ao que nos rodeia. Na verdade, é impressionante ver tanta Terra, na acepção mais global do termo, vê-la até mais não. Hoje, pudemos ver formações rochosas de todos os tipos, pudemos compreender um pouco melhor, penso, as diferenças de terreno, de paisagem. De facto, o Passe de Amogiar superou todas as expectativas de todos nós. As dunas palideceram por certo na comparação com um cenário que parecia não ter fim, incluindo verdadeiras paredes, aos meus olhos de leigo, que os jeeps foram subindo com todo o desembaraço, como se houvessem nascido para nada mais do que aqueles momentos.
Confesso-me surpreendido com a dignidade e postura dos Mauritanos, tal como já tinha conversado com o MN anteriormente. Parecem ter outra atitude devida, outro orgulho, outro amor-próprio. Parecem menos ansiosos pelo convívio (e ofertas) dos estrangeiros e visitantes em geral. Parecem mais cientes de quem são, menos permeáveis ao que vem do exterior. As viagens valem pelas coisas mas também muito (talvez ainda mais) pelas pessoas que se conhecem pelo caminho. Um até amanhã, de Atar.

Por Vasco

8º dia
Atar - Atar
20 km
10h00-23h00

Hora de almoço. Um vento agreste, de direcção incerta, impede-nos de, como habitualmente, podermos saborear a nossa sobremesa, a escolher entre scones, marmelada e salame de chocolate: um gostinho das coisas boas de casa, para contrastar com os atuns, salsichas e almôndegas em lata que tão bem, contudo, nos têm sabido. No entanto, estamos neste momento a enfrentar este vento adverso por um motivo bem especial: ao fim de algum tempo de procura, durante a manhã, encontrámos o ponto de chegada dos tão aguardados bólides do celebérrimo, e por todos apreciado, em maior ou menor grau, Lisboa-Dakar. Posto isso, andámos alguns quilómetros na direcção contrária para podermos escolher um bom sítio para almoçar e para ver (acima de tudo, este era o factor importante) a passagem dos potentes e ágeis veículos das areias. Como tal, sobra-nos um pouquinho de tempo para poder antecipar um tudo nada a escrita do nosso boletim diário.

Por Vasco


O nosso primeiro encontro com o Dakar nao esteve a altura das expectativas do grupo, muito embora o nosso entusiasmo nos tenha feito aguentar na pista a ver passar os concorrentes ate as 20h00, no entanto o dia ficou salvo quando decidimos entrar pelo bivouac com toda a confianca, gracas as postura do Miguel, e de repente demos por nos a assistir ao briefing nocturno que nos anos anteriores habitualmente via na eurosport e alguns tiveram mesmo a oportunidade de entabular uma conversa com o nosso piloto Carlos Sousa sobre os acontecimentos do dia.
Por hoje o relato fica mais curto pois a alvorada preve-se muito cedo, as 06h00 ja temos que estar a rolar para apanhar o inicio da 7 etapa.

4 Comments:

  • Booooom dia! Mal posso esperar por ouvir todas essas histórias. Vocês nunca mais chegam... É mesmo bom saber-vos bem, entusiasmados e bem dispostos. Divirtam-se e continuem a "acumular" muitas histórias para contar. Um beijo grande para todos, Joana.

    By Anonymous Joana, at 1/07/2006 9:33 da tarde  

  • Olá mauritaneos!!! Com que então sempre fazendo inveja aos trabalhadores portuenses e que apenas vão podendo assistir ao Lisboa Dakar na RTPN.

    Imagino os vossos voos e enquanto as areias vos vão enchendo os olhos eu vou retirar-me e ler o jornal da civilização em frente a uma lareira sem rochas nem areia.

    Fiquem bem e até ao v/ regresso....

    By Anonymous Anónimo, at 1/07/2006 11:06 da tarde  

  • São, sem duvida, quinze dias que valem por 3 anos na vossa memória. Troca-se roupa e prendas por sensações e aprende-se muito (quem diria!). Depois de ler fica-se com pena de se ter ficado. Mas se calhar é bem melhor para nós que não sentimos o frio, o calor, a adrenalina, a sempre chata areia e apenas lemos o entusiasmo que vai por aí vai.
    Além disso o meu estômago não me permite ir a orbacém sem um enjoo quanto mais subir e descer paredes no deserto durante o dia inteiro.
    O Dakar na tv é uma seca... este é bem melhor! Abraços para todos!

    By Anonymous Zé Pereira, at 1/11/2006 2:59 da tarde  

  • Não sei quem é o(a)PM mas também fico comenjôos de tantas dunas e curvas no deserto.Contudo, tem sido uma maravilha o descobrir e ler o vosso passeio. Hoje que chegaram para o banho (e braços) quentes de cá, felicito-vos do coração e fico contente pelo regresso tão óptimo (incluindo o pobre leitãozito que foi sacricicado aos deuses do dserto).
    Aguardo com ansiedade o tempo de ver imagens vossas e das paisagens.
    Beijos de boas-vindas da
    Betty

    By Anonymous Anónimo, at 1/14/2006 10:59 da tarde  

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